MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
Arquivo do Hotel Amazônia · Manaus · AM · escrito à mão por quem joga · o que está marcado como PROPOSTA ainda não é canon · esta página foi feita para 800x600
AMAZÔNIAprotocolo G-779572/1984 · arquivo credenciamento
rua 10 de julho · centro · manaus · amminuta

Credenciamento

Conceitorascunho

atualizado em 2026-08-25

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Credenciamento

Credenciado é a pessoa de fora que o Amazônia autoriza a trabalhar para ele. Presta serviço por cartão, não entra na folha e não tem cadeira na hierarquia. O que ela recebe junto com o pagamento é acesso, e o acesso é a parte cara.

Todas as PJs da campanha são credenciadas. Isso é canon e não se negocia na criação de personagem. A pergunta da sessão zero é o que a personagem fez para o Hotel achá-la.

A ordem dos fatos

Ninguém se candidata. A sequência é sempre a mesma:

  1. A pessoa estuda demais e fica Lúcida.
  2. A pessoa faz alguma coisa que aparece: resolve um caso, some com um corpo, publica o que não devia, entra num sistema onde não devia, sobrevive a algo que não deixa sobreviventes.
  3. O Amazônia já sabia, e agora tem motivo. Alguém liga para o seu trabalho, ou aparece uma carta, ou o gerente da sua agência menciona casualmente que um hóspede do Hotel Amazônia perguntou pelo seu nome.
  4. Convite para um café no saguão. Aceitar não é obrigatório, e recusar não é grave: o Amazônia não ameaça na primeira conversa. Ele só nunca mais volta, e você fica sozinho com tudo o que aprendeu.

Por que credenciar gente de fora

Porque o Amazônia é neutro, e neutralidade custa mão. O Hotel não pode ser visto agindo: não pode invadir uma delegacia, não pode ser flagrado num garimpo, não pode assinar embaixo do que faz. Um credenciado é braço descartável com currículo próprio. Se der errado, quem apareceu no jornal foi um professor da Universidade do Amazonas obcecado, e não a instituição.

E porque o serviço mudou. Nos anos 90 o Véu falha em lugares novos: fita de vídeo, banco de dados, laudo informatizado, satélite, contêiner de Zona Franca. O Amazônia tem cem anos de protocolo e nenhuma pessoa que saiba operar um modem.

Quem o Amazônia credencia

Quem tem alavanca: capacidade rara, dinheiro ou porta aberta. Lucidez sozinha não credencia ninguém, Manaus está cheia de Lúcido pobre e sem serventia, e o Hotel não tem programa social. Os cinco perfis abaixo são canon como tipos aceitos. Nenhum é obrigatório e a lista não é fechada.

Hackers e gente de sistema

Operadores de BBS, phreakers, analista de banco, quem entende do mainframe do INSS, da Telamazon, da Polícia Federal, da Receita. Modem de 2400 bauds, orelhão grampeado, disquete, listagem em formulário contínuo, fita DAT.

O Hotel contrata essa pessoa para apagar registro, plantar registro, seguir dinheiro e achar o nome que sobrou num sistema que o Véu não alcança. Ela aceita porque o Subsolo guarda ficha desde 1888, nada daquilo passou por máquina nenhuma, e ninguém mais no mundo vai deixá-la entrar lá. A fricção é desprezo mútuo: você é a única pessoa no prédio que entende o que faz, e eles te tratam como telefonista.

Assassinos de aluguel

Gente de ofício, que faz um trabalho, cobra e some. Capanga de fazenda e doido com faca não passam do saguão. Pistoleiro de conflito de terra que subiu na vida, ex-militar que virou consultor de segurança de empresa da Zona Franca, matador que o Hotel achou antes da polícia.

O Hotel quer o de sempre, e também escolta, recuperação de dívida e alguém que mantenha a calma quando o alvo não é gente. Em troca oferece contrato que ninguém rastreia e um lugar do mundo onde não se atira nela, porque o Hotel é solo neutro (ver As Regras).

Boa parte do que essa pessoa aprendeu não funciona do outro lado. Bala resolve homem.

Pesquisadores da alta sociedade

Herdeiro com biblioteca, colecionador, médico de família tradicional, gente de sobrenome do ciclo da borracha que tem uma sala fechada em casa desde 1912. Estuda porque pode.

O acervo e a genealogia interessam ao Hotel, mas o que ele quer mesmo é o acesso: essa pessoa entra no palacete, no clube, no velório certo, no gabinete do governador. Ela quer ser levada a sério e chegar antes dos outros.

A fricção é de família. Dinheiro velho de Manaus e o Amazônia se conhecem demais, e metade das dívidas antigas do Hotel está no nome dos seus.

Professores

Universidade, escola pública, museu, arquivo, seminário. É o perfil mais comum e o mais barato de manter, porque quem passou a vida cruzando fonte é quem fica Lúcido com mais frequência.

Numa investigação, o professor é quem diz qual criatura é, e essa é a pergunta central da campanha. Também entrega tradução, contexto e laudo.

Ele aceita por salário. Em 1990, um professor da Universidade do Amazonas está sendo comido vivo pela inflação, e o Amazônia paga em Iracemas, que não desvalorizam. A fricção aparece devagar: você é útil enquanto sabe, e o que você sabe eles arquivam.

Empresários ricos

Dono de importadora, de madeireira, de transportadora fluvial, de fábrica no Distrito Industrial, de rede de lojas. Não é o cliente do Hotel; é o fornecedor dele.

O Amazônia compra logística, fachada, contêiner que não é aberto, empresa limpa para assinar contrato e dinheiro comum quando o dinheiro precisa ser comum. O empresário compra informação de mercado que vale uma fortuna e proteção contra a concorrência que descobriu as mesmas coisas. E é o único da equipe que tem muito a perder, o que o Hotel sabe e usa.

Outros perfis

Os cinco de cima são os tipos que o Hotel procura de propósito. Os de baixo aparecem por acaso, quase sempre porque a pessoa tropeçou num caso antes de o Hotel tropeçar nela, e passam pelo mesmo critério de sempre: alavanca.

Repórter de rádio ou de jornal local. Vive com o rádio da polícia ligado e chega na cena antes da perícia. Ouve no corredor da delegacia o que não vira boletim, e conhece pela primeira letra o nome de quem some no rio todo mês. O Hotel quer a pauta que morreu na redação, a fita que o editor mandou guardar e o telefonema de madrugada quando aparece corpo com marca errada. Ela aceita porque, depois de anos, uma pessoa finalmente não riu. A fricção chega junto do anel: assinou para nunca mais publicar a única matéria que valia a carreira dela.

Delegado ou perito na ativa. Cena isolada por mais duas horas, a via do laudo antes de ela subir para o cartório, o nome da testemunha que o boletim não trouxe. O Hotel corre atrás desse perfil e depois não tira o olho dele, porque quem tem duas folhas de pagamento um dia escolhe uma. Vale a mesma regra que vale para todo mundo: a versão que fica no cartório da cidade é a que o Hotel escreveu, e o original desce para o Subsolo.

Advogado. O Amazônia não precisa de conselho jurídico. Precisa de uma empresa limpa registrada no nome de alguém, de um contrato que aguente audiência, de um inventário acompanhado de perto e de alguém que apareça na delegacia às três da manhã quando um credenciado é preso com uma arma que não é dele. Em troca, entra no arquivo, e o arquivo é o inventário mal contado de metade das famílias de Manaus.

Despachante aduaneiro. Sabe o que entra na cidade dentro de caixa e sabe qual caixa ninguém abre. Zona Franca, porto, declaração, tabela de código de mercadoria, o galpão onde a carga espera três dias. O Hotel usa para trazer o que não passa em papel e para achar o que chegou escondido em contêiner de eletrônico. Nenhum credenciado se gaba de ter um despachante na equipe, e é o despachante que fecha cartão que caçador nenhum fecharia.

Piloto de monomotor e comandante de barco de linha. No Amazonas não existe estrada, existe rio e pista de terra, e o Quadro manda gente para lugares que não têm nem uma coisa nem outra. Teco-teco de pista de garimpo, gaiola de linha para Tefé, empurrador de balsa: levam e trazem, o que já bastava. Por cima disso, são as duas profissões que mais veem coisa sem procurar. Quem voa baixo sobre o Solimões de madrugada e quem passa a vida no banzeiro juntam, em vinte anos, um repertório pelo qual o arquivista paga com prazer.

Freira ou padre. Paróquia de bairro, missão de rio, capelania de hospital, casa de irmãs no interior. Ouvem sem mandado, de graça e em três dias, o que uma equipe inteira levaria um mês para levantar, e são chamados quando a família acha que o problema não é médico. O balcão aceita e observa uma linha só: fé não desclassifica ninguém, devoção ao outro lado desclassifica. O padre que ficha o que encontrou é credenciado. O que começa a tratar uma criatura como alma a salvar vira assunto de arquivo em seis meses.

Dono de sebo. Livro velho chega em caixa, e caixa vem de inventário. O sebo do Centro que compra a biblioteca de um sobrenome morto abre, antes de qualquer pessoa do Hotel, o caderno que a família nunca leu. O Amazônia compra dele e paga pela preferência.

Quem o Amazônia não credencia

  • Quem não é Lúcido. Não se contrata quem esquece o relatório enquanto escreve.
  • Quem quer o Véu aberto esta semana. O Hotel também quer, e é o único plano que ele tem: o dia em que o Subsolo for grande o bastante para ser posto na mesa de um governo com exército. Quem antecipa isso numa terça-feira na Eduardo Ribeiro entrega uma plateia que o Véu desmancha até sexta e uma pilha de fita que outra pessoa vai ter que recolher. O desacordo é de calendário, e o balcão nega do mesmo jeito. Ver O Véu.
  • Quem já foi sancionado e não pagou. Ver As Regras.
  • Devoto. Gente que ama ou adora o que deveria estar catalogando dá relatório ruim.

O que a credencial dá

  • Entrada no Hotel Amazônia e no Quadro.
  • Conta em Iracemas. O Hotel paga na moeda dele. Ver Iracemas.
  • Consulta ao arquivo, mediada, paga e nunca completa.
  • Compra de serviços: limpeza de cena, documento, passagem segura, médico que não pergunta, arbitragem. Ver Serviços.
  • Solo neutro. Dentro do Hotel ninguém encosta em você, nem seus inimigos nem o Hotel.

O que a credencial cobra

  • Relatório. Todo trabalho termina em relatório entregue ao arquivista. Sem relatório não há pagamento, e relatório mentiroso é falta grave.
  • Discrição. Nada de imprensa e nada de testemunha a mais. Rasgo não é falta, não está nas quatro regras e não é cobrado de ninguém. O que a recepção anota é o desperdício: gente assustada sem uma fita na mão engorda o que mora no rio e não arma ninguém, e testemunha gasta não serve para ficha nenhuma. Ver As Regras.
  • Chamada. O Hotel pode chamar fora do Quadro. Recusar é um direito, e é anotado.
  • Dívida. O que você compra e não paga vira dívida, e toda dívida é paga.
  • Neutralidade. Enquanto trabalha para o Hotel, você não tem lado. Se tiver, escolha antes de aceitar o cartão.

O anel de tucum

A credencial é um anel preto, feito do coco do tucum, com um rubi cravado na face. O aro é o que qualquer feira de Manaus vende por preço de feira. A pedra não.

O rubi é pequeno, do tamanho de um grão de arroz, vermelho escuro e chato de propósito, para não pegar em bolso nem em gatilho. Na face dele, cortado em baixo relevo, está um símbolo que é só seu. Um anel de tucum com pedra vermelha, na mão de quem sabe, é a única coisa que identifica um credenciado do Amazônia no mundo inteiro.

O aro é torneado no Subsolo por quem faz manutenção de móvel. A pedra é cortada à ponta de diamante por um lapidário de fora, pago pelo Hotel, que recebe o desenho num papel e não pergunta o que ele significa. A Prensa não entra nisso: ela cunha ouro e latão, e mais nada. Ver Iracemas.

Entre aceitar o café no saguão e receber o anel passam uma ou duas semanas. Nesse intervalo você entra no prédio pelo nome, e é a última vez na vida em que isso acontece.

Para leigo, é anel de coco com uma pedrinha vermelha, coisa de barraca do Mercado Adolpho Lisboa. Ninguém em Manaus olha duas vezes para um anel de tucum na mão de alguém, e é por isso que ele serve.

O símbolo

O desenho é da pessoa, e a pessoa escolhe. Quem chega ao balcão com um símbolo pronto entrega numa folha, e o arquivista copia para a ficha na frente dela. Quem não tem ideia nenhuma recebe um do próprio arquivista, sempre geométrico e sem graça, o que já é uma opinião sobre o credenciado novo.

Três regras, e as três são de cadastro:

  1. Único no Livro Mestre. A recepção confere contra o registro antes de mandar cortar. Símbolo repetido, ou parecido demais com um que já existe, volta com um "não" educado e sem apelação.
  2. Não pode ser marca de outra coisa. Logotipo de empresa, brasão de família, escudo de time, símbolo de religião, marca de gado de fazenda conhecida. Um desenho que outra coisa já usa aponta para a outra coisa, e o anel existe para apontar para uma pessoa só.
  3. Não se troca. O símbolo entra na página junto com o seu protocolo, e sai riscado junto com ele. Ver Sanções e excomunhão.

O símbolo também assina. Relatório entregue ao arquivista leva o desenho no canto da primeira folha, a lápis, e é assim que o Subsolo sabe de quem é o papel sem escrever o nome de ninguém em lugar nenhum.

Na mesa, isso é trabalho de sessão zero: a jogadora desenha o símbolo da personagem numa folha e guarda o papel. É o desenho que vai aparecer no canto de um relatório de dez anos atrás, no dia em que a mesa abrir a gaveta errada do arquivo.

O que o anel prova

Não prova quem você é. Prova o que o Hotel te deve.

Por isso roubar um anel quase não serve. Quem chega ao balcão de uma sede com o símbolo de outra pessoa está dizendo, com um objeto na mão, que é outra pessoa, e a recepção conhece o desenho antes de conhecer a cara. Em sede que não te conhece o procedimento é sempre o mesmo e é lento: você deixa o anel na bandeja, senta, aceita o café, e alguém manda um telegrama para Manaus enquanto você espera.

Entre credenciados o anel faz outro serviço. Dois desconhecidos numa mesa de bar viram a mão, veem o vermelho e sabem que estão no mesmo livro, sem precisar dizer o nome do Hotel em voz alta. Não sabem mais nada um do outro, e é comum que não queiram saber.

Quebrar, perder, entregar

O coco racha. É coco: racha de pancada, de sol e de tempo. A recepção troca o aro na hora, de graça, e passa a pedra para o anel novo enquanto você espera em pé. A credencial é a pedra. O aro é embalagem.

Perder a pedra é conta. Cortar outra custa caro, o corte é lançado contra o seu protocolo com acréscimo, e até pagar você não tira cartão do Quadro. Perder a pedra três vezes é outra conversa, conduzida com muita educação, sobre onde as três foram parar.

Na suspensão, o anel fica no balcão e a pedra volta para a gaveta com o seu protocolo. Ver Sanções e excomunhão.

De onde o anel veio e o que o Hotel fez com ele

O objeto é de gente real. No Norte e no Centro-Oeste, o anel de tucum é usado há décadas como sinal de compromisso com quem não tem nada, e é o anel que padre e freira de pastoral usam no lugar do anel de ouro.

O Amazônia pegou esse anel, cravou nele uma pedra que vale mais do que um ano de trabalho de um ribeirinho e transformou promessa a quem não tem nada em marca de dívida com quem tem tudo. É a mesma operação que ele fez com o nome da região. Ver O nome.

A instituição faz isso sem achar que fez alguma coisa. Na recepção acham o anel bonito, barato e prático, e param aí. Quem enxerga é a freira credenciada que reconheceu o anel e a pedra na mesma olhada, e que agora usa um. Se a mesa quiser esse desconforto em cena, ele já está pronto e não precisa de nenhuma explicação de PNJ: basta a personagem estender a mão para cumprimentar alguém do interior e ver a pessoa olhar para o dedo dela por meio segundo a mais.

Por que todas as PJs são credenciadas

Porque é o que faz a estrutura de West Marches funcionar sem malabarismo de ficção: existe um lugar fixo onde todo mundo se encontra (o Hotel), um motivo comum para aceitar trabalho (a conta) e um jeito de qualquer subgrupo de 2 a 5 jogadoras sair junto em qualquer semana (o Quadro).

Ver Quadro de missões e mesa/estrutura-de-jogo.md.

Fontes e variações

O anel de tucum é objeto real, feito do coco da palmeira tucum, usado no Norte e no Centro-Oeste do Brasil. Desde os anos 1970 ele circula como sinal de compromisso da pastoral católica com povos indígenas e com trabalhadores rurais, e ficou associado a Dom Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, que usava um no lugar do anel episcopal. As histórias contadas sobre a origem do costume, ligadas a promessa e a aliança, variam de lugar para lugar. Em 1990 o anel está em uso, com esse sentido, nas mesmas cidades onde esta campanha se passa.

O rubi, o símbolo cortado na pedra e tudo o mais que o Amazônia faz com o anel são ficção deste repositório.


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