MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
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Sanções e excomunhão

Regrarascunho

atualizado em 2026-08-25

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Sanções e excomunhão

O que acontece com quem quebra as quatro regras. A escada tem cinco degraus, e o Amazônia sobe um por vez, com uma exceção que está no fim deste arquivo.

Nada disso é julgamento moral. É cobrança. O Hotel não pune por errado; pune por caro.

1. Anotação

Uma linha na sua ficha, escrita à máquina, sem adjetivo. "Protocolo 90-0412: relatório entregue em branco, cartão reaberto por outra equipe."

Efeito prático: cartão pior, honorário pior, prioridade pior. O café continua sendo servido, e continua chegando frio. Ninguém te comunica a anotação; você descobre pelo que para de te ser oferecido.

Três anotações no mesmo ano puxam o degrau seguinte sozinhas.

2. Cobrança em conta

O prejuízo é lançado contra você, com acréscimo. Serviço que você pediu e não pagou, adiantamento que não voltou, material do Hotel que ficou no fundo do igarapé, cartão que outra equipe teve que assumir no seu lugar.

Você continua trabalhando. Só que agora trabalha para o Hotel antes de trabalhar para você, e essa conta não corre juros no sentido bancário: ela cresce com o incômodo. Ver Iracemas e Serviços.

3. Suspensão

A credencial é recolhida, com prazo. Trinta dias, seis meses, um ano.

  • O anel fica no balcão. O aro de tucum não interessa a ninguém e some numa gaveta; a pedra com o seu símbolo volta para o envelope do seu protocolo. No dedo fica a marca clara de quem usou anel preto por anos, e todo credenciado sabe ler isso. Ver Credenciamento.
  • Sua conta em Iracemas fica congelada, e o ouro que estiver com você continua sendo ouro.
  • O Quadro deixa de existir para você.
  • O arquivo fecha.
  • O solo neutro cai. É a parte que mata gente. Você continua Lúcido, continua sendo enxergado pelo outro lado, continua com os inimigos que fez trabalhando para o Hotel, e agora não tem o saguão.

Voltar depende de pagar o que deve e de alguém de dentro dizer que vale a pena. Suspensão cumprida não some da ficha.

4. Cobrança de fora

O Amazônia manda alguém atrás de você, e quase sempre manda outro credenciado.

O cartão sai no Quadro como qualquer outro, em linguagem de hotelaria, com prazo, lotação e honorário. Diz "diária em atraso" ou "hóspede a localizar", traz o seu protocolo e não traz o seu nome. Quem tira o cartão pode nem saber de quem se trata até bater na porta.

Isto está no cenário de propósito, e vai acontecer na mesa: um dia uma equipe vai tirar um cartão de cobrança e o protocolo vai ser de alguém que já sentou naquela mesa. A recepção não avisa, e o pagamento é o mesmo.

5. Devolução ao Véu

A sanção máxima, e o equivalente local da excomunhão. Aplica-se a três coisas e a mais nada: matar dentro do Hotel, mentir no Livro Mestre e desonrar promissória.

O procedimento é de escritório, e leva menos de um dia:

  1. Risca-se a linha. O protocolo é riscado no Livro Mestre, com uma régua e uma pena, e a data é anotada na margem. A partir daquele traço a conta não existe, e o que você tinha depositado não é seu nem é de ninguém. O seu símbolo é riscado na mesma página e não volta a ser usado: ninguém nunca mais recebe aquele desenho, e o anel continua no seu dedo, valendo o que vale um coco com uma pedra.
  2. Recolhe-se a moeda. Toda Iracema com o seu nome atrás de um código é chamada de volta à rede. As que estiverem com você continuam sendo ouro, e são as últimas que você gasta em qualquer sede.
  3. Manda-se o telegrama. Vinte e sete sedes e as casas, na mesma tarde. Correspondente estrangeiro leva mais uma semana.
  4. A porta fecha. Você não é expulso, não é ameaçado e não é procurado. Você simplesmente deixa de ser atendido, em qualquer lugar, para sempre.

Como é ser devolvido

Não é magia. É protocolo, executado por gente educada:

  • O telefone chama e ninguém completa. A telefonia não desliga na sua cara; a ligação simplesmente não vai.
  • A recepção olha para você e pergunta em que pode ajudar, e continua perguntando em que pode ajudar, sem reconhecer nada do que você disser.
  • Credenciado que jantou com você semana passada atravessa a rua. Não por medo. Por conta: quem ajuda um devolvido herda a linha riscada.
  • O arquivo continua com a sua ficha, e ela é a única coisa sua que sobra. Ninguém apaga arquivo.

E aí vem a parte que dá nome à sanção. Você continua Lúcido, continua acendendo para o outro lado, continua devendo a quem devia, e não tem mais nenhum lugar no mundo onde não se encoste em você. O Hotel não te entrega a nada: só para de segurar a porta.

Ninguém volta. Em cem anos não há registro de reversão. Se a mesa quiser um, que seja um arco inteiro, e que custe caro.

Funcionários

Para gente do Hotel a escada é mais curta e mais dura. Erro não derruba: erro é corrigido, anotado e esquecido. Mentira no livro derruba na hora, com demissão e devolução no mesmo dia, e a chave de latão fica em cima do balcão.

É a única falta que o Amazônia trata como irreparável em quem é de dentro, e a razão é aritmética. A instituição inteira é um livro. Um livro em que se possa mentir não vale nada.

O que não é punido

Matar fora do Hotel, roubar, trair cliente, mentir para a polícia, vender informação, trabalhar para dois lados na mesma semana. Nada disso está nas quatro regras.

O Amazônia não é a sua consciência. É a sua credora, e não perde tempo com o que não estraga o negócio dela.


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