Pitch para as jogadoras
Conceitorascunho
atualizado em 2026-08-25
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Pitch para as jogadoras
Onde e quando
Manaus, 1990. Trinta e seis graus às nove da manhã. O Teatro Amazonas recém-restaurado no meio da cidade. O porto engolindo e cuspindo gente. A Zona Franca montando televisor para o resto do país. O dinheiro derretendo na mão de todo mundo entre o pagamento e a feira de sábado.
Nada de celular, nada de internet, nada de GPS. Orelhão, ficha, fax, pager, fita cassete, disquete, Barsa, xerox e um caderno.
O que é verdade neste mundo
O sobrenatural existe. Curupira existe. O boto vira homem e às vezes a criança nasce. A Matinta assobia de madrugada e no dia seguinte alguém aparece na porta pedindo tabaco.
Ninguém sabe disso porque existe o Véu: uma ocultação que faz o extraordinário escorregar da memória das pessoas comuns. Elas veem. O que não conseguem é segurar o que viram. Vira sonho, vira cachaça, vira "coisa da minha avó".
O Véu não protege vocês. Protege o segredo, e quem vive do segredo mora do outro lado. Enquanto ninguém consegue sustentar o que viu, ninguém se organiza, e uma cidade que não se organiza é comida de pouco em pouco, por décadas, sem nunca abrir inquérito.
Ele não cede a coragem, nem a fé, nem a susto. Cede a estudo obstinado. Quem lê demais, anota demais, compara demais, começa a enxergar. E não tem volta.
Quem vocês são
Lúcidas. Já passaram por isso. A gente não vai jogar a descoberta: ela já aconteceu, e cada uma decide como foi. Qual livro, qual caso, qual noite em que o mundo não voltou pro lugar.
E são credenciadas pelo Amazônia.
O Amazônia é a instituição privada, antiga e educada que administra o mundo sob o Véu. A sede é o Hotel Amazônia, na Rua Dez de Julho, a uma quadra do Teatro, e o nome leva artigo masculino por causa dele: a floresta é a Amazônia, o hotel é o Amazônia. Dá para dizer em voz alta na fila do banco. Quem ouve entende que você vai a um hotel, e você vai mesmo.
O que o Hotel quer cabe numa palavra: registrar. Descobrir o que é cada coisa que anda no escuro, escrever ficha, juntar prova, e continuar juntando até o arquivo servir para pôr o assunto na frente de gente com exército. Cem anos e ainda não serviu, porque o Véu alcança a hora de gravar e estraga o que sai: o filme estoura, a fita chia, o laudo não fecha. Enquanto esse dia não chega, o Hotel derruba culto e interrompe o que já matou três vezes no mesmo igarapé.
Nada disso faz do Amazônia gente boa. Ele não paga para salvar ninguém, cobra por tudo que faz e manda cobrar de quem não paga. Vocês são a mão dele na rua.
Ele paga em moeda própria, as Iracemas, moeda de ouro que não perde valor. Em 1990 isso é quase um milagre, e é por isso que gente boa aceita trabalhar para ele.
Ele credencia quem tem alguma alavanca: hacker, assassino de aluguel, pesquisadora de família rica, professora, empresário. Gente com acesso, com capacidade rara ou com dinheiro. Vocês escolhem, e a personagem já tem currículo quando a campanha começa.
O que a gente vai jogar
Thriller criminal com sobrenatural. Toda missão começa como um caso: alguém morreu, alguém sumiu, alguém está mentindo, alguém pagou para a pergunta não ser feita. Vocês investigam de verdade, com cena, testemunha, arquivo, rua, suborno e mentira.
Em algum ponto o caso deixa de fechar como crime.
A pergunta central não é quem foi, e sim o que é. O que estava do outro lado decide o tom da noite. Às vezes vira aventura: perseguir, negociar, entrar na mata e sair viva. Às vezes vira horror: entender tarde demais e pagar caro por ter entendido.
Como a mesa funciona
Estilo West Marches. Existe um mural no mezanino do Hotel, o Quadro, cheio de cartões de serviço. Cada cartão diz o prazo, o pagamento, o risco e quantas pessoas o Amazônia autoriza (normalmente de 2 a 5).
Na prática: quem puder jogar naquela semana joga. Ninguém trava a campanha por falta de quorum, ninguém é obrigada a estar em todas, e não existe "o grupo oficial". A personagem que não saiu está em Manaus, vivendo a vida dela.
Se a noite terminar com o cartão em aberto, a missão não se perde. Ela congela numa linha do tempo, marcada no ponto exato em que a gente parou. O mesmo grupo que parou pode voltar e continuar dali; um grupo diferente abre outra linha do tempo, com outro cartão. As regras inteiras estão em Estrutura de jogo.
O que uma equipe descobre, as outras só sabem se alguém contar. E o mundo continua andando entre uma sessão e outra.
Sistema
SRD 5e adaptado para o mundo moderno: arma de fogo, perícias contemporâneas, dinheiro real e Iracemas, e uma trilha de conhecimento em que saber mais é progresso e é preço.
A ordem do trabalho é de propósito: vocês escrevem a história da personagem primeiro, e eu escrevo as classes depois, em cima do que vocês trouxerem. Não vai ter lista de classe para escolher na sessão zero.
O que já dá para adiantar:
- Evolução vem em pontos de habilidade.
- Com eles se compra talento no códice, o catálogo aberto que fica à mão de todo mundo.
- Quem não achar no códice o que quer pode escrever a própria habilidade e trazer para a mesa. Eu ajusto custo e limite junto com você, e ela entra.
Ver Pontos de habilidade. A sessão zero não depende de nada disso estar pronto.
O que precisa da sua parte
- Um motivo obsessivo para ter estudado até enxergar.
- Uma alavanca: o que você faz que ninguém do Hotel faz.
- Uma dívida, um favor ou uma pergunta em aberto com o Amazônia.
- Suas linhas e véus: o que não entra na mesa e o que entra com a câmera desviada. Isso é levado a sério. Vai ter horror, e horror combinado é melhor que horror por acidente.
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