MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
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AMAZÔNIAprotocolo R-938309/1986 · arquivo as-regras
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As Regras

Regraem revisão

atualizado em 2026-08-25 · esta ficha tem trecho reservado

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As Regras

O Amazônia tem quatro regras. Não são leis, não são código de ética e não estão afixadas em lugar nenhum. Todo credenciado ouve as quatro na primeira conversa, ditas devagar, e ninguém repete depois.

Primeira regra: aqui não se derrama sangue

Dentro do Hotel Amazônia, ninguém encosta em ninguém. Nem cliente, nem credenciado, nem inimigo de morte, nem o próprio Hotel. O prédio é solo neutro: a pessoa que te caça está tomando café a três mesas de distância, e as duas vão terminar o café.

  • Vale do meio-fio ao último andar. A calçada conta, a rua não, e muita gente morreu descobrindo onde exatamente termina a soleira.
  • Vale para todas as sedes, uma por estado, e para as casas menores. Ver Sedes.
  • Não vale para ameaça, chantagem, roubo ou traição. Só para sangue. O Amazônia é neutro e não é bom.
  • Quem faz a regra valer é a manutenção, e ela não avisa duas vezes. Ver Pessoal do Hotel.

Segunda regra: toda dívida é paga

O que se compra do Amazônia se paga. O que se deve a um credenciado com aval do Hotel se paga. Não há prescrição, não há perdão, não há falência, e a morte não encerra nada: dívida grande passa para quem herdou o que ela comprou.

E paga quem deve. A dívida está lançada num protocolo, sai daquele protocolo e sai em trabalho. A irmã rica não quita a sua conta, o patrão não quita, o cliente agradecido não quita. A recepção não tem linha onde lançar isso.

Iracema não é presente

Cada moeda tem código cunhado e uma linha de filiação no Livro Mestre, e o livro sabe de que mão ela saiu. Quem recebe um punhado de Iracemas de alguém e as apresenta no caixa descobre que a recepção lê o livro antes de contar o ouro. As perguntas começam ali, são feitas com muita educação e ficam anotadas.

Serviço de fachada também não resolve. Varrer a rua de um credenciado rico por dez Iracemas não é preço, é disfarce, e a recepção conhece a diferença. Uma moeda é cinco gramas de ouro e cem anos de livro; pagar com ela um trabalho que qualquer um faria por um prato de comida é desaforo, e é assim que o Hotel trata. Cartão do Quadro, serviço de verdade prestado a quem podia pagar aquilo, dívida velha acertada: isso o livro entende.

Quem tenta mesmo assim: a moeda é aceita, porque o Hotel não recusa ouro. A dívida continua do tamanho que era, o ouro entra como depósito de quem trouxe e os dois protocolos ganham uma anotação. Ver Iracemas e Sanções e excomunhão.

Trocar Iracema com gente de dentro continua legítimo, e é uma das duas maneiras de ter moeda no bolso. O que a segunda regra não admite é ouro andando de mão em mão para apagar dívida alheia.

  • É a regra que sustenta o negócio inteiro. As outras três existem para proteger esta.
  • É também o gancho pessoal mais fácil de pendurar numa PJ. Comece o jogo devendo, e devendo sozinha.

Terceira regra: o Acordo de Nova

Acordo firmado no Hotel, com testemunha da recepção, é acordo firmado. Não se desfaz na esquina, não se renegocia depois, não se alega má-fé. Quem descumpre um acordo assinado ali não está brigando com a outra parte: está brigando com o Amazônia.

O acordo tem nome próprio, e o nome é do fundador. No papel sai Acordo de Nova; na boca de quem já firmou um, Juramento de Nova. Quem é Nova o primeiro livro da recepção não diz, e O Branco nunca explicou a ninguém. Pergunte na recepção e a resposta é que Nova é o nome do acordo.

  • É por isso que gente que se odeia sobe a escada do Hotel para conversar.
  • Firmar é serviço pago. Entra no Livro Mestre com data, protocolo das duas partes e o teor do que foi acertado.
  • Arbitragem também é paga, e o preço da arbitragem é sempre menor que o preço da guerra. Esse cálculo é intencional.

Quarta regra: toda promissória é honrada

Uma promissória é uma dívida sem valor. Não tem preço, não tem prazo, não tem descrição e não vira Iracema nenhuma. Quem emite está prometendo uma coisa que ainda não foi escolhida, para ser cobrada num dia que ainda não chegou.

A peça

Uma placa de latão do tamanho de um cartão do Quadro, cunhada na Prensa, com um código igual ao das moedas e nenhum valor como metal. No anverso vai o polegar de quem promete, carimbado em sangue e selado com goma-laca por cima, que endurece e não sai. No reverso fica um campo vazio, para o polegar de quem cobrar no dia em que cobrar.

Promissória com um dedo só está aberta. Com dois, está cumprida: volta para a recepção, a linha fecha no livro e a peça desce para o Subsolo, onde tem gaveta só delas.

Emite-se na recepção, com testemunha, e a emissão custa uma Iracema, paga por quem promete. O Hotel não emite a segunda para quem já tem uma aberta.

Como se cobra

Quem está com a peça na mão escolhe o que quer, na hora em que aparece. Pode ser uma carona até Novo Airão, pode ser um nome, pode ser o seu lugar num cartão que você não queria largar, pode ser a coisa que você jurou nunca fazer. Não se negocia valor porque não há valor: a promissória vale o que quem cobra pedir, e o único teto são as outras três regras.

A peça muda de mão; a dívida não. Promissória se troca, se vende, se perde em mesa de carteado e se deixa em testamento. Quem prometeu continua devendo, agora a um desconhecido. Promissória velha vale mais que promissória nova, porque teve tempo de andar, e é por isso que ninguém dorme bem sabendo que emitiu uma em 1979.

Quem recusa

Recusar não sobe a escada das sanções: cai direto no último degrau. Não há multa, não há suspensão e não há conversa. Quem desonra promissória é devolvido ao Véu no mesmo dia, e a rede inteira para de atender.

Matar quem cobra não adianta, porque a peça fica na mesa e passa para quem herdar. Sumir não adianta, porque o código está no livro e o livro não fecha código nenhum. A promissória atravessa mudança de estado, troca de nome e vinte anos de silêncio.

O Amazônia registra promissória, não emite nenhuma e não aceita nenhuma como pagamento de conta. O Hotel cobra em ouro, e favor é assunto entre clientes.


Sanções

A escada completa, com procedimento, está em Sanções e excomunhão. Resumo:

  • Anotação. Uma linha na sua ficha, sem adjetivo. Honorário pior, cartão pior, café mais frio.
  • Cobrança em conta. O prejuízo que você deu é lançado contra você, com acréscimo, e a partir dali você trabalha para o Hotel antes de trabalhar para si.
  • Suspensão. A credencial é recolhida por prazo determinado. Você continua Lúcido, continua caçado, e agora sem conta e sem solo neutro.
  • Cobrança de fora. O Amazônia manda alguém atrás de você, e quase sempre manda outro credenciado. Um dia esse cartão vai estar no Quadro com o protocolo de alguém da mesa nele.
  • Devolução ao Véu, a sanção máxima, no lugar da excomunhão. O protocolo é riscado no Livro Mestre e a rede inteira para de atender. Não por magia, por protocolo: telefone que não completa, recepção que não reconhece, credenciado que atravessa a rua. Ele continua Lúcido, continua acendendo para o outro lado, e agora não tem para onde correr. Ninguém volta.

Três faltas pulam a escada inteira e caem direto no último degrau: sangue dentro do Hotel, mentira no Livro Mestre e promissória desonrada.

Por que o Véu não está nas regras

Isso pega credenciado novo de surpresa, e é a primeira coisa que a recepção corrige.

O Hotel não guarda o segredo do outro lado. Passa cem anos juntando prova contra ele e quer vê-lo aberto um dia, numa sala com adido militar dentro. Quem faz a cidade esquecer é o próprio Véu, que trabalha sozinho e trabalha melhor quanto maior for a plateia. Ninguém precisa ajudar, e ninguém consegue atrapalhar.

O que sobra depois do susto é o que interessa ao Amazônia: fita, negativo, via do laudo, boletim, testemunha que topa falar com o Hotel em vez de falar com o jornal. Isso o Hotel recolhe e desce para o Subsolo, e nada é destruído. Perder o controle de um cartão na Eduardo Ribeiro às seis da tarde não quebra regra nenhuma e não vira conta: o Hotel manda buscar o que ficou porque quer aquilo no arquivo, e paga o próprio pessoal para ir. O que você gastou foi a testemunha, que depois de assustada e desmentida pelo Véu não serve mais para ficha nenhuma, e o próximo cartão naquele endereço vai ser pior por causa disso.

O que não é regra

O Amazônia não proíbe matar, roubar, mentir, trair cliente, vender informação nem trabalhar para os dois lados. Nada disso está nas quatro. O Amazônia não é a sua consciência; é a sua credora.


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