MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
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Jargão de hotelaria

Conceitorascunho

atualizado em 2026-08-31

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Jargão de hotelaria

O Amazônia escreve tudo em linguagem de hotel. Cartão do Quadro, recado de telefonia, ofício entre sedes, lançamento no livro: tudo poderia estar falando de hospedagem, e para qualquer leigo que leia por cima está.

Cifra se quebra achando a chave; aqui não tem chave. O vocabulário é profissional, preciso, e vale como hotelaria de verdade para quem não sabe do resto. Um cartão apreendido pela Polícia Federal em 1990 é um bilhete sobre um quarto com problema.

A tabela

No papel Quer dizer
Correspondência não respondida Pessoa desaparecida
Hóspede indesejado Criatura instalada num lugar
Hóspede de longa permanência Coisa que mora ali há décadas e todo mundo já se acostumou
Hóspede que não sabe que chegou Pessoa Tocada que ignora o que é
Vazamento Rasgo no Véu
Vazamento com causa Rasgo provocado de propósito
Barulho no andar de cima Atividade do Outro Lado num ponto conhecido
Bagagem extraviada Objeto perdido que precisa voltar
Serviço de quarto Limpeza de cena
Tem um problema no andar Chamem a manutenção, no sentido de caça
Bagagem para a rouparia Material recolhido, a descer para o Subsolo
Troca de roupa de cama Sumir com um corpo
Arrumação completa Limpeza pesada, mais de um corpo, prazo curto
Quarto em reforma Lugar interditado pelo arquivo
Check-out antecipado Morte de credenciado em serviço
Conta encerrada Devolução ao Véu
Diária em atraso Dívida vencida, cobrança autorizada
Hóspede a localizar Pessoa que o Hotel quer, viva
Reserva confirmada Alvo localizado e parado
Grupo grande Mais de uma criatura no mesmo caso
Chuva no saguão Polícia dentro do prédio
O elevador está em manutenção Não venha ao Hotel hoje
Flores para o quarto Alguém morreu e o Hotel está pagando o enterro
Café frio Você desagradou, e ninguém vai explicar
Sem toalha Você está por conta própria neste, sem apoio do Hotel
A gerência agradece O assunto está encerrado, pare de perguntar

Como se usa

Ao telefone, com quem é de dentro. A telefonia fala assim o dia inteiro, sem esforço: "Doutora, aqui é do Hotel. A senhora tem uma correspondência não respondida na Ramos Ferreira, e a gerência pede atenção hoje ainda."

No cartão. A frase é sempre impessoal e pede alguma coisa: solicita-se, pede-se atenção, tratar com a recepção. Nunca há verbo de ação, nunca há nome de criatura, nunca há endereço completo se o endereço for perigoso.

No livro. Ali o jargão fica seco e vira quase contábil. "90-0412. Arrumação completa. Cobrado."

Fora do Hotel. Dois credenciados numa mesa de bar cheia falam disso em voz normal, e a mesa ao lado ouve conversa de hotelaria. É a mesma lógica do nome da instituição. Ver O nome.

O que não tem eufemismo

Quatro palavras são ditas como são, sem tradução, e o contraste é proposital:

  • Véu. Ver O Véu.
  • Lúcido.
  • Iracema.
  • Subsolo. O arquivo. É literalmente o subsolo do prédio, e ninguém nunca achou graça em inventar outro nome para ele.

Quando alguém do Hotel usa uma dessas quatro palavras, a conversa deixou de ser sobre hospedagem, e todo mundo na sala entende que passou o ponto de fingir.

Exercício de tradução

Um cartão real do Quadro, e o que ele está dizendo:

  PROTOCOLO 90-0731                      LOTAÇÃO 3–5
  ------------------------------------------------------
  Hóspede indesejado no anexo da Compensa. Suspeita de
  grupo grande. Solicita-se arrumação completa e
  atenção ao vazamento constatado em março.
  ------------------------------------------------------
  PRAZO  6 dias                     HONORÁRIO  70 ir
  RISCO  vermelho                   CLASSE     indefinida

Tradução: tem coisa morando num prédio na Compensa, provavelmente mais de uma, vai ter corpo para sumir, e naquele ponto o Véu já cedeu uma vez este ano. Risco vermelho com classe indefinida significa que o Hotel sabe que é entidade confirmada e não sabe qual, o que é a pior combinação que um cartão pode ter.

Para credenciado novo

Você vai passar os primeiros meses traduzindo errado, e o pessoal do Hotel vai achar graça sem corrigir, sem maldade nisso: é o jeito de ensinar. Quem aprende o vocabulário aprende junto o hábito de ler devagar, e ler devagar é o que mantém credenciado vivo.

O erro clássico é confundir hóspede indesejado com hóspede de longa permanência. Os dois são criatura instalada. O primeiro é para tirar, o segundo é para não incomodar, e a diferença entre um e outro é a única coisa que o cartão está te dizendo.


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