MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
Arquivo do Hotel Amazônia · Manaus · AM · escrito à mão por quem joga · o que está marcado como PROPOSTA ainda não é canon · esta página foi feita para 800x600

A distopia

Conceitorascunho

atualizado em 2026-08-24

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A distopia

O cenário é levemente distópico, e a distopia é toda real: o Brasil de 1990 com as engrenagens à mostra, sem nada inventado para ficar mais sombrio, e o sobrenatural entra por cima.

O princípio da mesa: parte da podridão tem assinatura sobrenatural, e a parte que não tem é pior. Quando as jogadoras descobrem que o desaparecimento não foi criatura nenhuma, a sessão não fica mais leve.

O dinheiro não é confiável

Em março de 1990 o governo trocou a moeda pela terceira vez em quatro anos e bloqueou os depósitos da poupança do país. Dinheiro que era de gente comum ficou preso, e quem tinha prestação para pagar pagou como deu.

Isso não é pano de fundo, é mecânica de mundo:

  • Preço muda dentro do mesmo dia. Remarcação na gôndola com pistola de etiqueta é rotina.
  • Salário derrete entre o pagamento e o fim do mês. Todo mundo tem um segundo jeito de ganhar.
  • Contrato longo não existe. Confiança vale mais que assinatura, e ouro vale mais que os dois.
  • Uma instituição que paga em Iracemas e nunca reajusta preço parece coisa de outro mundo. É exatamente essa a intenção.

A ditadura acabou faz pouco

Cinco anos, e o aparelho continua no lugar. Delegado que serviu no período está na ativa, arquivo de órgão de informação nunca foi aberto, e a lei que anistiou tudo continua valendo. Existe gente em Manaus com dossiê sobre ela num armário que ninguém sabe onde fica.

Para uma campanha de investigação, isso vale ouro: a resposta muitas vezes está num papel que existe, que alguém guardou e que não vai ser entregue a você por vias normais. E existe um lugar que compra papel assim há cem anos.

A floresta está sendo vendida

  • Garimpo. Dezenas de milhares de homens em áreas sem lei, mercúrio no rio, pista de pouso clandestina, ouro comprado no balcão sem pergunta. Em 1990 o governo começou a dinamitar pista em terra Yanomami, depois de anos de invasão, malária e violência.
  • Grilagem e madeira. Documento falso de terra é indústria. Quem está na terra é retirado por pistoleiro, e o pistoleiro raramente é preso. O assassinato de Chico Mendes, no fim de 1988, mostrou ao país inteiro como o negócio funciona, e o negócio continuou.
  • Obra grande. A BR-174 foi aberta nos anos 70 cortando território Waimiri-Atroari, e o que aconteceu com aquele povo naquele período é um dos assuntos que a região não digeriu. A usina de Balbina alagou floresta para gerar pouca energia, e a energia falta em Manaus mesmo assim.
  • Trabalho. Peão aliciado com promessa, levado para longe, endividado no barracão e sem como voltar. É o mesmo arranjo do ciclo da borracha, com caminhão.

A Zona Franca é um enclave

Manaus vive de um regime de exceção fiscal criado pela ditadura em 1967. A cidade cresceu para montar televisor com peça importada, e o emprego de milhares de famílias depende de uma canetada em Brasília. Em 1990 a abertura das importações começou a derrubar esse arranjo, e a demissão chegou junto com o plano econômico.

O que isso cria de útil para o jogo: carga que entra do exterior sem ser aberta, galpão vazio, empresa de fachada, contêiner que muda de dono no papel três vezes antes de chegar. Um lugar excelente para trazer alguma coisa de fora sem que ninguém pergunte o que é.

O Estado atende mal e vigia bem

Fila de hospital, escola sem professor, água que falta, luz que cai, delegacia que não investiga morte de pobre. Ao mesmo tempo, cadastro, ficha, dossiê, telefone grampeado, informante em sindicato e em igreja.

A parte que interessa a esta campanha é a lacuna. Todo ano some gente em Manaus que ninguém procura, e todo ano se afoga gente no rio sem inquérito nenhum. O Véu mal precisa trabalhar num lugar onde o laudo já vem pronto.

O que isso significa na mesa

  1. A autoridade é um balcão. Com paciência, dinheiro ou alavanca, ela entrega qualquer coisa, inclusive para o lado errado.
  2. Todo mundo está apertado. PNJ mente por dinheiro pequeno. Isso é mais realista e mais triste que ameaça.
  3. A pergunta continua sendo o que é. A resposta "foi gente" está sempre em cima da mesa, e às vezes é a mais difícil de aceitar.
  4. Não transforme tragédia real em monstro. Massacre, invasão de terra e trabalho escravo não viram lenda nesta campanha. Podem ser o cenário em que uma criatura aparece, e a criatura nunca é a desculpa.

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