MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
Arquivo do Hotel Amazônia · Manaus · AM · escrito à mão por quem joga · o que está marcado como PROPOSTA ainda não é canon · esta página foi feita para 800x600

As Cinco

Entidaderascunho

atualizado em 2026-08-25

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As Cinco

Cinco fichas do arquivo de Amazônia, uma por região do país, cada uma sobre uma coisa comprida, antiga e grande demais para caber nas outras gavetas. O arquivo trata as cinco como assuntos separados, com uma exceção que está mais abaixo, e o nome deste arquivo não existe lá dentro. Foi posto aqui por quem juntou as cópias.

Nenhuma das cinco jamais foi vista inteira por alguém que tenha voltado para escrever o relatório. Tudo que segue é rastro, papel velho comprado de gente morta e depoimento que ninguém levou a sério na hora.

O que as cinco têm em comum

Quatro coisas, e é por causa da quarta que alguém um dia vai juntar as fichas.

  1. Formato. Cobra, e não figurativamente. Comprimento que o relato nunca consegue estimar sem virar exagero, e nenhuma testemunha que descreva cabeça e cauda no mesmo encontro.
  2. Território travado. Nenhuma delas nunca foi registrada fora da região dela, em nenhum século. Isso não vale para o resto do que o arquivo cataloga.
  3. Os olhos. Toda aparição confirmada tem o mesmo detalhe: dois pontos de luz na altura da cabeça, à distância que faz o observador achar que é lanterna de barco, farol de caminhão ou fogueira de acampamento. A cor da luz é constante por indivíduo, e é por isso que o arquivo as fichou por cor em vez de por nome.
  4. Nunca se encontraram. Cinco coisas desse porte no mesmo país, em quinhentos anos de registro, e zero relato de duas na mesma cena. Isso não é sorte.

A tabela do arquivo

Ficha Elemento Como o povo chama Onde Rastro que ela deixa
a Azul água Boiúna, Cobra Grande, Mãe do Rio Norte naufrágio em água limpa, sumiço de banhista, o Fundo
a Vermelha fogo Boitatá, Baitatá, Batatão Nordeste queimada sem causa, febre que a medicina não fecha, seca que passa da conta
a Verde terra Minhocão Sul barranco que cai, curso de rio que muda, plantação que apodrece em pé
a Dourada luz Mãe-de-Ouro Sudeste veio de ouro que aparece do nada, mina que engole turma inteira
a Cinza ar nenhum Centro-Oeste gente que se perde a duzentos metros de casa e é achada sem saber o próprio nome

Sobre a coluna dos nomes, duas observações que o arquivo faz questão de registrar:

A Azul é chamada de cobra preta e está fichada em azul. Boiúna vem de mboi una, cobra preta, e o povo do rio acertou pela água e não pelo bicho: quem é preto é o Negro. A luz dos olhos dela, em todo relatório que chegou a Manaus desde 1830, é azul.

A Cinza não tem nome em lugar nenhum. É a única. Existe folclore de redemoinho, de vento que leva, de gente que sumiu no cerrado e voltou sem lembrar de nada, e em nenhuma versão a coisa é nomeada. As outras quatro têm nome em três idiomas. Essa não tem em nenhum, e o arquivo não explica.

O que o povo conta de cada uma

A Cobra Grande tem ficha própria, porque é a de casa e porque é a que a mesa vai encontrar.

Do Boitatá o registro mais antigo é uma carta do padre Anchieta, de 1560, descrevendo nos campos do Sul uma coisa de fogo que corria rente ao chão e matava quem encontrava. A tradição depois virou protetora: a cobra de fogo persegue quem toca fogo no mato e queima o incendiário. No Nordeste ela aparece como Batatão e Baitatá, sem a parte protetora.

O Minhocão é o mais estranho dos cinco no papel, porque quase todo o registro dele é do século passado e vem de naturalista europeu que anotou depoimento de morador no Paraná e em Santa Catarina: uma coisa que anda por baixo, derruba barranco, arrasta pinheiro pela raiz e deixa a terra revirada num rastro que dá para seguir de manhã.

A Mãe-de-Ouro é a que menos parece cobra e a que mais aparece: uma luz que atravessa o céu de Minas e de Goiás e cai onde tem ouro. Garimpeiro segue a luz. O que não se conta em roda de fogo é que a taxa de morte em mina aberta desse jeito é outra, e que o arquivo tem trinta e quatro casos de turma inteira que entrou e não saiu.

Da Cinza não há o que contar, e essa é a ficha mais fina das cinco.

As duas que estão na doutrina

A Vermelha e a Azul aparecem por nome no primeiro livro da recepção, na linha em que O Branco escreveu quem encomendou o Véu: é a única coisa que o Hotel afirma sobre qualquer uma das cinco sem mandar buscar prova antes, e é o que tira as duas da fila comum de ficha de bicho. Credenciado ouve na primeira semana, junto com o resto do que se diz na recepção, e segue para o Quadro.

O que fica de pé se alguém parar para pensar é bem maior do que a frase. Se duas coisas enterradas encomendaram o Véu, as duas se falaram, e coisa que em quinhentos anos nunca apareceu na mesma cena não deveria conseguir se falar. Se o Véu veio depois de uma derrota, alguém as derrotou. E se a doutrina para em duas, sobram três fichas de gaveta de região que ninguém nunca encaixou em coisa nenhuma. O primeiro livro da recepção não escreve uma palavra sobre nada disso, e em cem anos ninguém cobrou a palavra que falta.

O que o Amazônia faz com isso

Nada, e nada é a política, escrita com todas as letras.

  • Não se caça. A tentativa documentada de 1954 contra uma Cobra Grande custou dezoito pessoas e dois anos de recolhimento em três municípios, e essa era uma das pequenas.
  • Não se estuda de perto. Existe cartão anual, verde, para conferir de longe se cada território conhecido continua com o mesmo morador. É o cartão mais bem pago do Quadro entre os verdes, e a recepção nunca explica por quê.
  • Não se conta. As cinco crescem com atenção, como toda entidade grande, e as cinco são as maiores que o arquivo conhece. Ver Regras do sobrenatural.
  • Não se soma. As três primeiras são regra escrita. Esta acontece sozinha, sem ninguém ter decidido nada.

A margem da ficha da Verde

Em 1901, um arquivista cujo nome foi raspado do livro de ponto anotou a lápis, na margem da ficha da Verde, uma palavra e um número: cinco.

Não deixou mais nada escrito, e três meses depois pediu demissão e mudou de estado. A anotação continua lá, e em noventa anos ninguém no Subsolo perguntou o que ela significa.

Ganchos

  • Um malote de Fortaleza chega trocado, com quinze fichas que deviam ter ido para outro lugar. Todas as quinze são de queimadura, e a PJ que abrir o malote vai passar a noite acordada.
  • Um velho no Educandos pede uma audiência na recepção do Hotel para avisar que a luz do rio mudou de cor. Ninguém entende o que ele quer dizer e ele morre antes de explicar.
  • Alguém está comprando, em sebo de São Paulo e do Rio, todo livro do século passado que mencione o Minhocão. Paga acima do preço e não quer conversa.
  • Um credenciado de Cuiabá some num cartão de rotina e reaparece em Manaus onze dias depois, andando, sem saber o próprio nome e sem uma marca no corpo.

Fontes e variações

Boiúna, Cobra Grande, Cobra Norato e Maria Caninana são tradição oral amazônica de domínio público. O Boitatá é registrado desde a carta do padre José de Anchieta de 1560 e aparece com variação de nome e de comportamento em quase todo o país. O Minhocão é tradição do Sul, registrada em relato de morador recolhido por naturalistas no século XIX. A Mãe-de-Ouro é tradição de Minas Gerais e de Goiás, ligada à mineração.

O que este arquivo acrescenta como ficção da campanha é a fichagem por cor, as quatro coisas que as cinco têm em comum e tudo que o Amazônia diz sobre elas. Nada aqui é atribuído a nenhuma comunidade ou povo específico.

Ver também Cobra Grande.


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