MANAUS, 1990arquivo da campanha5 de janeiro de 1975 às 01:00
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Manaus, 1990

Conceitorascunho

atualizado em 2026-08-25

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Manaus, 1990

O ano da campanha é 1990, e a cidade é personagem. Este arquivo é o mapa de trabalho: o que existe, onde fica, como se atravessa e o que se ouve enquanto se atravessa.

O básico

Um milhão de pessoas encaixadas entre o rio Negro e a floresta, sem rodovia pavimentada ligando a cidade ao resto do Brasil. Quem chega, chega de avião ou de barco. Quem sai, sai do mesmo jeito.

Faz calor todo dia, o ano inteiro, e chove sem avisar. O rio sobe até junho e desce até novembro, e a cidade organiza a vida por isso: quando a cheia bate, o Educandos entra na água, a passarela do igarapé some e o preço da banana muda na feira.

O Centro

O quarteirado que interessa cabe em vinte minutos de caminhada, e é onde a campanha começa e termina toda semana.

  • Teatro Amazonas. A ópera de 1896, reaberta em 1990 depois de restaurada, com a cúpula de telha vinda da Alsácia e o largo de pedra portuguesa em ondas na frente. É o vizinho ilustre do Hotel.
  • Hotel Amazônia. Rua Dez de Julho, a uma quadra do Teatro. Sede de Amazônia, hotel de verdade, com hóspede de verdade que nunca nota nada, e o único endereço do Centro onde o Paranormal não entra. Ver lore/locais/hotel-amazonia.md (a escrever).
  • Avenida Eduardo Ribeiro. A rua de comércio, banco, loja de tecido, camelô, gente demais na calçada. Desce da Praça da Matriz até o rio.
  • Mercado Adolpho Lisboa. Ferro fundido, peixe, ervas, garrafada, banca de raiz, cheiro de tambaqui e de mucura-caá. É onde se compra o que não se acha em farmácia.
  • Porto Flutuante e Manaus Moderna. O porto que sobe e desce com o rio, os barcos de linha para Parintins, Coari, Tefé e Manacapuru, a feira, o gelo, a carga que chega e some.
  • Escadaria dos Remédios, Praça da Saudade, Praça 14 de Janeiro. Sombra, banco de praça, velho que sabe de tudo.
  • Palácio Rio Negro, Biblioteca Pública, Museu Amazônico. Arquivo, jornal velho encadernado, funcionário público entediado. Metade das investigações passa por aqui.

O resto da cidade

  • Distrito Industrial. Zona Franca de verdade: galpão, ônibus de fábrica às cinco da manhã, milhares de operárias montando televisor, aparelho de som, relógio e bicicleta para o Brasil inteiro. Contêiner que entra sem ser aberto é assunto recorrente do Hotel.
  • Adrianópolis e Nossa Senhora das Graças. Dinheiro. Casa com muro alto, clube, médico, sobrenome de borracha.
  • Educandos, São Raimundo, Compensa, Cachoeirinha, São Jorge. Bairro de gente que trabalha, ladeira, palafita, igarapé passando embaixo da casa.
  • Cidade Nova e os conjuntos da Zona Norte. Conjunto habitacional novo, quadra de terra, poste sem lâmpada, mato começando na esquina de trás. A cidade cresceu para lá em dez anos.
  • Ponta Negra. Praia de rio, quiosque, banho de domingo, gente sumindo na água todo ano.
  • Ramais. Toda estrada de Manaus tem ramal saindo dela: chão de barro, quinze quilômetros mata adentro, sítio, olaria, comunidade, e o que estiver depois disso.

Como se anda

Ônibus lotado, táxi, Fusca, Chevette, Kombi, bicicleta, carroceria de caminhonete. Barco para tudo que é do outro lado da água: não existe ponte sobre o rio Negro, e a travessia para o Careiro é de balsa. A BR-319 para Porto Velho está no mapa e está abandonada no chão. A BR-174 sobe para Boa Vista cortando terra Waimiri-Atroari, com trecho que ninguém atravessa à noite por motivos que cada um explica de um jeito.

Como se fala com alguém

Nada de celular, nada de internet, nada de GPS. Em 1990 comunicação é:

  • Orelhão a ficha, e ficha se compra em banca. Linha residencial é bem caro e demora meses.
  • Telefonema interurbano pedido na telefônica, com espera e com tarifa que dói.
  • Fax, em escritório e em cartório. Recado, bilhete, papelzinho no balcão.
  • Rádio amador e rádio de fazenda para falar com o interior, que é a única coisa que funciona no ramal.
  • Pager para quem tem dinheiro. Telex para quem é empresa.
  • A Crítica de manhã, Rede Amazônica de noite, rádio o dia inteiro.

O que se escuta, se vê e se toma

Fita cassete gravada de rádio, lambada, brega, Roberto Carlos, forró de dupla no ônibus. A Copa do Mundo é em junho, na Itália, e a cidade para. Na TV, Pantanal na Manchete tem bicho que vira gente e velho que conversa com o rio, e ninguém acha estranho, o que ajuda muito. Guaraná de garrafa, tacacá às cinco da tarde, x-caboquinho, açaí com farinha e peixe, tucumã no pão.

Cinema no Centro, videocassete alugado na locadora, disquete e computador só em empresa, banco e universidade.

O ano, na cidade

  • 15 e 16 de março: posse do novo presidente e plano econômico. Troca de moeda outra vez, e o dinheiro da poupança do país inteiro fica bloqueado. Comércio parado, salário sumindo, gente pagando conta com o que tem em casa. Ver Distopia.
  • O ano inteiro: abertura das importações começa a bater na Zona Franca, e demissão vira assunto de primeira página em Manaus.
  • Junho: Copa, e festival dos bois em Parintins, que esvazia meia cidade rio acima.

Como usar na mesa

  • O calor não é enfeite. Todo mundo está suando em toda cena. Ventilador de teto, ar condicionado de janela pingando, camisa colada nas costas, e o Hotel é o único lugar do Centro onde a temperatura é agradável.
  • Distância é tempo. Ir a Manacapuru é meio dia. Ir a Parintins é uma noite e um dia de barco. Isso muda o desenho de um cartão com prazo.
  • A cidade tem memória curta e boca grande. Não existe segredo em bairro, e existe muito segredo em cartório.
  • Falta luz. E quando falta luz, tudo que este cenário guarda no escuro fica mais perto.